Pesquisadores desenvolvem métodos alternativos para o controle de hormônios sintéticos na pecuária

No Brasil, em 2017, as atenções se voltaram para o mercado de carnes. A Operação Carne Fraca, deflagrada pela Polícia Federal em parceria com o Ministério Público (MPF), identificou diferentes irregularidades nos frigoríficos, entre elas o uso de substâncias químicas de forma indiscriminada, tornando o alimento impróprio para o consumo humano. Dezenas de empresas do ramo, além de fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, foram acusados de participação no esquema, que adulterava a carne vendida no mercado interno e externo. Enquanto o problema repercutia em todo o País, pesquisadores da Universidade Federal do Cariri (UFCA) começaram a pesquisar métodos alternativos para o controle de substâncias químicas nos alimentos.

Liderados pelo professor Thiago Mielle, a equipe, formada pelo professor Francisco de Assis Cavalcante; por quatro estudantes de iniciação científica, Amíson Gomes, Daniel Bernardes, Luís Arrais Júnior e Marcelo Felipe; e pelo técnico em laboratório João Victor Moura, tem desenvolvido estudos para descobrir métodos alternativos de aferição da quantidade de estrogênios (hormônios) sintéticos usados na pecuária. No momento, os pesquisadores focam no estudo de métodos para medir a quantidade de hexestrol presente nas tilápias criadas em cativeiro e de dienestrol encontrados na carne bovina. De acordo com o professor Thiago Mielle, a ideia é encontrar uma maneira mais simples de fazer o controle nesses alimentos, bastante consumidos no Nordeste.

“Nós não temos métodos muito eficientes, não temos controle muito rigoroso com relação à presença ou não desses compostos. É uma instrumentação muito cara. (…) Às vezes o procedimento de análise é muito complexo”, comentou. Essas substâncias, conforme Mielle, são utilizadas para fazer os animais crescerem e se reproduzirem mais rápido. Como não são totalmente metabolizadas, acumulam-se no organismo dos consumidores, podendo causar diversos problemas de saúde. “Algumas literaturas trazem problemas cardíacos, problemas alérgicos, mas um dos mais graves é a função de desregulador endócrino. São substâncias que afetam negativamente nosso metabolismo, desenvolvendo alguns problemas nas glândulas endócrinas”, disse. Câncer e problemas hormonais podem estar associados à desregulação, de acordo com o pesquisador.

Métodos

Os métodos para verificar o hexestrol e o dienestrol já estão sendo testados em laboratório, no campus Juazeiro do Norte. O estudante Amíson Gomes, do sétimo semestre do curso de Engenharia de Materiais, que participou da construção do equipamento, explicou como funciona. No caso da tilápia, a equipe construiu eletrodos (sensor químico) de carbono modificado com nanocristais de níquel. Esses sensores são colocados em contato com uma amostra extraída de uma pasta feita do fígado da tilápia. Com o auxílio de um software, os níveis de hexestrol vão sendo calculados.

Já para verificar o dienestrol no boi, os pesquisadores utilizam um eletrodo de carbono vítreo modificado com nanotubos de carbono e nanopartículas de prata e também contam com a ajuda do software. Nesse caso, a amostra analisada é a urina do boi. As tilápias utilizadas foram compradas no comércio local. Já a urina do boi foi disponibilizada por voluntários de fazendas em Marabá (PA), onde Thiago Mielle desenvolve um projeto em parceria com a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa).

A ideia do pesquisador é futuramente patentear e disponibilizar esses dispositivos para instituições que tenham interesse em utilizar. No momento, ainda não há parceria com nenhum órgão. “A gente tem tentado divulgar alguns dos nossos trabalhos, porque normalmente é assim: você divulga o trabalho, as pessoas tomam conhecimento e chega o interesse”, disse.

Menção honrosa

Os estudos com o hexestrol e o dienestrol foram apresentados no Vigésimo Segundo Congresso Brasileiro de Eletroquímica e Eletroanalítica, realizado no começo de setembro em Ribeirão Preto (SP). Com a apresentação do último, o estudante Amíson Gomes recebeu menção honrosa, o único do Nordeste a ser contemplado com esse reconhecimento nesta edição do evento. “No artigo foi apresentado o método e os resultados da aplicação do nosso dispositivo. Na eletroanalítica já existem vários estudos utilizando esses eletrodos, mas não tinha nenhum sendo utilizado para esse tipo de substância mais precisamente”, explicou Gomes.

Ele tem 22 anos e planeja fazer mestrado e doutorado, quando concluir o curso de Engenharia de Materiais, para continuar na carreira de pesquisador. É filho de agricultores e morava na zona rural de Exu (PE), distante cerca de 85 km de Juazeiro do Norte, ajudando os pais na roça em plantações de milho e feijão. Foi o primeiro da família a ingressar numa universidade pública. Precisou se mudar para o Crato, a fim de ficar mais próximo da universidade, e passou a contar com auxílios da assistência estudantil. “Ele está fazendo um trabalho excelente, é muito dedicado. Ele passou por uma mudança de vida”, disse o professor. Graças a isso, hoje, além de ter diferentes opções de escolhas para o futuro, Amíson pode contribuir com comunidades que trabalham com produção agropecuária, ao desenvolver pesquisas nessa área.

Apoio e parceiros

Os trabalhos desenvolvidos pelos pesquisadores só foram possíveis por causa do apoio financeiro da universidade e das instituições de fomento à pesquisa. No ano passado, o projeto recebeu R$ 5.333,33 de edital da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação (PRPI/UFCA), que contemplou outras 29 pesquisas da instituição. De acordo com o Pró-Reitor Adjunto de Pesquisa da UFCA, professor Rafael Perazzo, com esse tipo de edital, o pesquisador pode adquirir material de consumo e serviços de terceiros de forma simplificada, sem a necessidade de licitação. “O próprio pesquisador escolhe os materiais mais adequados e com melhor custo-benefício”, disse. Dessa forma, a pesquisa também pode andar mais rápido, sem precisar aguardar os trâmites de uma licitação, ressaltou o professor Thiago Mielle.

O estudo também recebe apoio financeiro da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Conta ainda com parceria, além da Unifesspa, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) e da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (Uern). Essa parceria prevê a possibilidade de uso da infraestrutura dessas universidades e também de intercâmbio e troca de conhecimento entre os pesquisadores.

Acesse mais fotos do projeto no Flickr da UFCA.

Serviço

Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação (PRPI)
Campus Juazeiro do Norte
(88) 3221-9566
prpi@ufca.edu.br

Centro de Ciências e Tecnologia (CCT)
Campus Juazeiro do Norte
(88) 3221-9581
cct@ufca.edu.br

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